No dia 8 de março de 2022 teve lugar no auditório da ESOB o colóquio “Memórias cruzadas, políticas do silêncio. As guerras coloniais e de Libertação”, dinamizado pelos investigadores André Caiado e Verónica Ferreira, do Centro de Estudos Sociais da Universidade e Coimbra, integrado na projeto “CES vai à Escola”.

A sessão foi dirigida a três turmas do 11.º e do 12.º anos do curso de Línguas e Humanidades e foi organizada pelas professoras de História do ensino secundário.

Os palestrantes iniciaram a sessão com a apresentação dos objetivos do projeto CROME (Crossed Memories, Politics of Silence. The Colonial-Liberation Wars in Postcolonial Times), salientando que as guerras coloniais/guerras de libertação devem ser pensadas enquanto eventos históricos que produziram memórias cruzadas em Portugal e nas ex-colónias portuguesas - Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe -, cuja exploração permite melhor compreender as formas como a guerra é lembrada (ou esquecida) pelos seus intervenientes.

Os conferencistas prosseguiram a sessão com a apresentação de uma retrospetiva histórica do colonialismo português em África, em particular as causas que conduziram à guerra colonial nos territórios da Guiné, Angola e Moçambique, entre 1961 e 1974. Debruçaram-se sobre os recursos humanos e materiais envolvidos na guerra e os custos da mesma; apresentaram os motivos invocados pela potência colonial (Portugal) em oposição aos pontos de vista dos movimentos de libertação africanos; invocaram alguns dos episódios mais marcantes da guerra (por exemplo, a revolta da UPA em 15 de março de 1961, o massacre de Wiriamu, em Moçambique, entre outros).

Relativamente ao impacto social da guerra, foi referido que cerca de 800.000 portugueses foram mobiliados, 9000 foram mortos e mais de 15.000 ficaram deficientes. Cerca de 100.000 combatentes sofreram (sofrem) de síndrome de stress pós-traumático. Assistiu-se à africanização da guerra, já que cerca de 400.000 tropas negras foram integradas nas Forças Armadas Portuguesas. Esse fenómeno provocou graves conflitos no interior das colónias africanas.

A sessão foi enriquecida com a projeção e exploração de vídeos não só sobre episódios da guerra, mas também sobre a vida quotidiana nas roças; o relacionamento entre a população branca e a africana; a violência colonial – eram frequentes as humilhações e os castigos corporais; a arquitetura das cidades – os bairros dos brancos e dos negros.

Os conferencistas sublinharam a importância de cruzar as memórias para melhor compreender as guerras coloniais (ou do Ultramar, como se dizia em Portugal) ou as guerras de libertação (como eram vistas pelos povos africanos). Referiram que existe uma panóplia de recursos (livros, filmes, blogues e monumentos) sobre estes temas. A título de exemplo, deram a conhecer as obras ficcionadas Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes; De Lamego ao Lubango, de Miguel Henriques; A Minha Guerra, de Alcino Ferreira.

No final da sessão alunos e professoras colocaram questões bastante pertinentes, tais como se havia racismo e apartheid nas colónias portuguesas; como é apresentada a história africana nos manuais escolares; e quais problemas causados pela descolonização.

Para concluir, cremos que o objetivo da sessão foi amplamente conseguido, como consta no site do CES vai à escola*, a saber “Incitar a reflexão e o debate sobre o papel da memória histórica no presente, […] trazer a memória da guerra para o léxico da sala de aula através de uma perspetiva complementar àquela enquadrada pelo ensino da História.”

* http://ces.uc.pt/extensao/cesvaiaescola/#temas

Conceição Janeiro, prof.ª de História


 

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